O presidente dos EUA, Donald Trump, conversa com a imprensa antes de embarcar no helicóptero Marine One rumo a Grand Island, Nebraska REUTERS/Eric Lee O atual hiperfoco de Donald Trump é... a inteligência artificial 👀. O presidente dos Estados Unidos tem insistido que quer mudar o nome da tecnologia para "superinteligência (SI)".

Em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, no mês passado, Trump afirmou que "o nome inteligência artificial faz soar como se ela fosse falsa". Disse ainda que "de agora em diante, todos os documentos dos EUA e, espero, de todo o mundo, vão utilizar o nome Superinteligência". 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem?

Mande para o g1 Antes de decidir por "Superinteligência", Trump chegou a abrir uma enquete em sua rede social, a Truth Social, com as opções "Inteligência Superior (IS)", "Inteligência Extrema (IE)" e "Inteligência Suprema (IS)", traduzidas para o português. Dois dias depois, ele fez uma nova enquete, desta vez com "Superinteligência" e "Inteligência Superior". Em nenhuma das postagens, ele explicou como a alteração seria feita ou se o mercado de tecnologia concordava com a mudança.

E tem mais: em seguida, Trump causou polêmica ao afirmar que passaria a tratar como "inimigo" quem usasse o termo "inteligência artificial" em vez de "Superinteligência". Agora no g1 O que Trump quer? Quem não acompanha tecnologia talvez tenha ouvido falar de IA apenas recentemente, sobretudo com o surgimento do ChatGPT.

Mas o conceito existe há mais de 70 anos e a tecnologia está presente no dia a dia há muito tempo, após passar por grandes transformações nas últimas décadas. (entenda mais abaixo) Por isso, mudar o nome da IA não é tão simples quanto parece. Segundo Anderson Soares, considerado o brasileiro mais influente em IA, o próprio conceito de inteligência ainda não tem uma definição precisa, tanto nas ciências biológicas e naturais quanto no campo da tecnologia.

"O que chamamos hoje de inteligência artificial está relacionado à capacidade das máquinas de realizar tarefas que associamos à inteligência humana", afirma Soares, que também é fundador e professor do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA), da Universidade Federal de Goiás (UFG). "O objetivo de mudar o nome me parece muito mais um contragolpe na questão de paralisar o desenvolvimento da IA.

Parece mais um ato político do que efetivamente algo construtivo e que contribua para o que está acontecendo em termos de desenvolvimento", completa. ChatGPT, DeepSeek, Claude, Mistral AI, Gemini, Copilot e Poe Solen Feyissa/Unsplash Cleber Zanchettin, professor de Engenharia da Computação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em IA, chama a atenção para o discurso de Trump na ONU.

"Primeiro, ele disse 'bem-vindos ao novo mundo da superinteligência' e completou com 'vamos ver se isso vai dar certo'. Isso revela uma jogada de marketing para chamar atenção, sem efeito prático", disse. Para o professor e pesquisador Allan Pscheidt, a proposta de Trump também não parece ser uma mudança na definição científica ou técnica da tecnologia, mas uma demonstração de poder e soberania dos EUA no cenário internacional de IA.

"A gente está vivendo algo parecido com o que aconteceu na corrida para a Lua e na corrida espacial. Estamos passando agora para a corrida pela AGI (Inteligência Artificial Geral)", diz Pscheidt. "Quando Trump vem com a ideia de cunhar o termo 'superinteligência', ele está avisando ao mundo que os EUA vão atingir a AGI muito em breve e que, com isso, vão mostrar sua soberania tecnológica", afirma.

🔎 AGI (sigla em inglês para "Inteligência Artificial Geral") é o termo usado para descrever uma IA capaz de realizar uma ampla variedade de tarefas intelectuais em nível semelhante ou superior ao dos humanos. Allan ressalta que, até o momento, não há comprovação científica de que já exista uma superinteligência. O presidente dos EUA, Donald Trump (no centro), durante reunião na Casa Branca com líderes de empresas de IA, como Meta, Nvidia, Google e xAI, em 29 de setembro de 2026.

Jonathan Ernst/ Reuters Cleber Zanchettin, da UFPE, alerta que, como grande parte da população ainda tem pouco conhecimento sobre tecnologia, produtos com o rótulo de IA já enfrentam certa rejeição ou medo no mercado. "Introduzir um termo como 'superinteligência' ou 'inteligência suprema' pode soar como uma ameaça aos humanos e aumentar a rejeição do público", explica Zanchettin.

"Poucos países e populações abraçaram a tecnologia de fato, e a maioria das pessoas ainda está tentando entender o que é a IA básica e como ela funciona". Mais da metade dos brasileiros (52%) diz estar mais preocupada do que animada com o avanço da inteligência artificial, segundo uma pesquisa recente do Pew Research Center.

Nos EUA, a percepção é semelhante: cerca de nove em cada 10 americanos dizem estar mais preocupados do que animados com a possibilidade de a IA um dia superar a inteligência humana, segundo uma pesquisa da CNN divulgada em setembro. De onde surgiu o termo IA? Um caderno manuscrito de 56 páginas que pertenceu ao pioneiro da computação Alan Turing é leiloado em Nova York REUTERS/Bobby Yip O termo IA nasceu do trabalho de pesquisadores de diferentes áreas, como engenharia, matemática e estatística.

Eles buscavam entender como criar máquinas capazes de demonstrar alguma forma de raciocínio e inteligência semelhante à dos seres humanos, explicou Zanchettin. O nome foi definido formalmente em meados de 1955, nos Estados Unidos, e surgiu do trabalho de pesquisadores como John McCarthy, Marvin Minsky, Claude Shannon e Nathaniel Rochester, explicou o professor.

"Eles precisavam de uma nomenclatura para pesquisas que misturavam matemática, engenharia e estatística para criar máquinas capazes de exibir raciocínio, algo que não se enquadrava no software tradicional da época", disse Zanchettin. Mas as pesquisas sobre máquinas capazes de pensar começaram antes disso. Entre as décadas de 1940 e 1950, o matemático e cientista da computação Alan Turing já estudava essa possibilidade, explica o pesquisador Allan Pscheidt.

Na mesma época, em 1948, o matemático Norbert Wiener criou o termo "cibernética" para estudar sistemas capazes de usar informações sobre suas próprias ações para ajustar seu funcionamento. Segundo Pscheidt, foi nesse contexto que John McCarthy criou a expressão "inteligência artificial", em 1955. A escolha também buscava diferenciar esse campo de pesquisa da cibernética, com foco no raciocínio e na autonomia das máquinas.

Com o avanço e a popularização da tecnologia, a IA passou a fazer parte do cotidiano das pessoas, em recursos como reconhecimento facial de bancos, carros semiautônomos, drones, alto-falantes inteligentes e câmeras de celulares. Mais recentemente, a partir de 2017, ganhou força a IA generativa, que deu origem a ferramentas como o ChatGPT e é capaz de criar textos, imagens, vídeos e músicas.

No fim, para Anderson Soares, "as ondas tecnológicas costumam passar por fases relativamente previsíveis: primeiro provocam medo e desconfiança; depois vêm a aceitação e o encantamento; e, com o tempo, a tecnologia passa a ser compreendida e deixa de parecer algo extraordinário". Óculos inteligentes são proibidos na cabine de votação