Jovem que nasceu sem os braços mostra como dirige com os pés após conquistar CNH em MG Reiner Jesus Martins, de 20 anos, precisou aproveitar as férias da faculdade para conseguir fazer as aulas práticas e concluir o processo para tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH).

Nascido sem os dois braços, o jovem começou a procurar uma autoescola em novembro do ano passado, enfrentou meses de espera, precisou buscar atendimento em outra cidade e relata ter encontrado dificuldades relacionadas à falta de preparo para atender pessoas com deficiência. 📲 Siga a página do g1 Sul de Minas no Instagram Atualmente morando em Lavras (MG), onde cursa agronomia, Reiner precisou conciliar o processo de habilitação com a faculdade.

Depois de conseguir o laudo da junta médica do Detran, ele fez as aulas teóricas de forma remota e foi aprovado no exame teórico. "Tive muita dificuldade nisso. O despreparo do mundo está aí, como minha mãe fala", diz o jovem.

A parte prática ficou para as férias da faculdade. Em julho, Reiner foi para Pará de Minas (MG), onde encontrou uma autoescola com um veículo adaptado às necessidades dele. Foram 30 aulas práticas, duas por dia, durante 15 dias.

A prova de direção foi realizada em 5 de agosto, quando ele foi aprovado. Jovem que nasceu sem os braços conquista CNH após aprender a dirigir com os pés em MG Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal O processo, no entanto, começou muitos meses antes.

Leia também: Bicicleta adaptada foi primeiro passo de jovem que nasceu sem os braços até a conquista da CNH ‘Até chorei de emoção’: jovem que nasceu sem os braços conquista CNH após aprender a dirigir com os pés em MG A busca pela habilitação Em novembro do ano passado, Reiner procurou uma autoescola em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, que informou ter adaptações para pessoas com deficiência. A empresa o ajudou a agendar os exames psicotécnico e médico.

Depois da avaliação, porém, ele ainda precisou passar por uma junta médica na sede do Detran, em Belo Horizonte. A consulta foi marcada para 2 de fevereiro. Segundo Reiner, o laudo que indicava as condições necessárias para que ele pudesse dirigir deveria ter sido enviado por e-mail no dia seguinte, mas isso não aconteceu.

"Eles falaram que chegaria no outro dia por e-mail, só que não chegou. Eu fiquei mandando e-mail, ligando, pedindo esse laudo, e não chegava", relata. O documento só chegou no fim de fevereiro.

Naquele momento, as férias da faculdade estavam terminando e ele precisava voltar para Lavras. Para não interromper completamente o processo, Reiner fez as aulas teóricas de forma remota. Ele passou no exame teórico e ficou pendente apenas a etapa prática, que foi deixada para julho, quando teria novamente um período de férias para se dedicar às aulas.

Veículo adaptado estava em outra cidade Com o laudo em mãos, Reiner voltou a procurar a primeira autoescola para verificar se ela tinha as adaptações indicadas. A escola, porém, não tinha os equipamentos necessários. Foi então que ele passou a buscar outras opções em cidades próximas.

A autoescola que conseguiu atender às necessidades dele ficava em Pará de Minas. O veículo tinha câmbio automático, acelerador invertido para o lado esquerdo, comandos do painel adaptados para serem acionados com os membros inferiores e um "pomo", dispositivo instalado no volante para facilitar a direção.

"O dono e o instrutor [da autoescola] me acolheram muito bem e falaram assim: 'Isso aqui é um desafio, mas essa é uma missão pra nós, fazermos você tirar sua carteira'." Para fazer as aulas, Reiner ficou entre Florestal (MG) e Pará de Minas, na casa de um amigo, e fazia o deslocamento de ônibus. Durante 15 dias, concentrou duas aulas práticas por dia para concluir as 30 horas previstas.

Ao todo, foram cerca de nove meses entre a procura pela primeira autoescola, em novembro do ano passado, e a aprovação no exame prático, em agosto deste ano. Foram nove meses entre a procura da primeira autoescola e a aprovação no exame prá Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal Despreparo dos profissionais Apesar de ter conseguido concluir o processo, Reiner afirma que a experiência revelou dificuldades que vão além da falta de veículos adaptados.

Para ele, ainda existe falta de preparo para atender pessoas com deficiência. "É um processo muito burocrático. Querendo ou não, as leis estão aí pra gente poder realizar o nosso sonho, sim.

Mas as pessoas ainda estão mal preparadas pra receber as pessoas com deficiência", afirma. Reiner relata ter enfrentado situações que considera capacitismo, principalmente durante a avaliação médica e o atendimento relacionado ao Detran. "Muita má vontade, muito julgamento e muita questão do capacitismo ainda, principalmente na junta médica", diz.

Segundo ele, em alguns momentos sentiu que os profissionais partiam de uma ideia sobre aquilo que ele seria ou não capaz de fazer, em vez de buscar entender quais adaptações poderiam permitir que ele conduzisse o veículo. "Os médicos olham pra você e simplesmente falam assim: 'Você não consegue, você vai fazer assim, assim, assim', em vez de tentar entender seu caso e adaptar da forma mais fácil pra você, tendo o que você consegue", relata. Para Reiner, esse foi um dos pontos mais difíceis de todo o processo.

Apoio da família desde a infância Reiner conta que apoio da família foi essencial no processo de autonomia Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal Apesar das dificuldades, Reiner conta que sempre teve o apoio da mãe e da família para desenvolver a própria autonomia. Desde os primeiros meses de vida, passou por terapias e acompanhamentos para encontrar maneiras de realizar as atividades do cotidiano e, dentro de casa, foi estimulado pela mãe a fazer as tarefas sozinho.

Foi assim que aprendeu a escrever, comer, escovar os dentes e se vestir usando principalmente os pés. Em algumas situações, também utiliza a boca, o queixo e o tronco. "A terapia é muito baseada na questão de te dar a forma para você encontrar a maneira de fazer as coisas", explica.

Segundo Reiner, a família também teve um papel importante para que ele tivesse uma infância com convivência social e pudesse participar das atividades escolares e de outras experiências como qualquer outra criança. A mãe também o ajudou a lidar com situações de preconceito. Quando ainda era criança, enquanto voltava da escola, um menino o chamou de "sem braço".

Ela orientou o filho a responder e tentar conversar com ele. "Eu falei assim: 'Olha, tudo bem, eu sou sem braço, sim, mas meu nome é Reiner. E o seu?

Você quer ser meu amigo?'" Esse tipo de orientação ajudou a construir a maneira como ele passou a lidar com os olhares, perguntas e atitudes de pessoas que não estavam acostumadas a conviver com alguém com deficiência. Da bicicleta adaptada ao carro Antes de aprender a dirigir um carro, Reiner já havia encontrado em um veículo adaptado uma forma de experimentar a própria independência. Quando ainda era criança, um dos padrinhos construiu uma bicicleta especialmente para ele.

O modelo não tinha um guidão convencional e permitia que Reiner conduzisse usando o tronco. “Meu padrinho é muito inteligente, então ele desenvolve várias coisas do nada. Ele fez essa bicicleta adaptada pra mim quando eu era bem novinho”, lembra o jovem.

A bicicleta continua guardada pela família e representa uma das primeiras experiências de mobilidade independente do jovem. Para ele, a habilitação representa mais uma etapa de uma trajetória construída com o incentivo da família para que pudesse encontrar suas próprias maneiras de fazer as coisas. "Eu provo para mim mesmo que eu consigo e, depois, eu vou e provo para as outras pessoas", afirma.

Padrinho construiu bicicleta para Reiner; veículo continua guardado pela fam Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal Veja mais notícias da região no g1 Sul de Minas