Christa Pike quando foi sentenciada, em 1996, e em mugshot de 2023 Foto 1: WBIR-TV via AP / Foto 2: TDOC via AP Christa Pike, condenada à morte por assassinato, deveria ter sido executada nesta quarta-feira (30), no Tennessee, nos Estados Unidos. Ela recebeu duas aplicações de pentobarbital, barbitúrico que, em doses altas, provoca coma e, em seguida, a parada da respiração e do coração. Mesmo assim, continuou respirando e foi levada a um hospital.
Sobreviver à droga em dose letal é raro. Segundo o Death Penalty Information Center, outras sete pessoas já sobreviveram a execuções malsucedidas no país, mas ninguém havia continuado vivo depois de receber as drogas. Apesar de raro, o caso não é novidade.
O g1 teve acesso a um relato de caso médico que documenta um paciente que sobreviveu ao pentobarbital. Em agosto de 2018, médicos australianos publicaram no Journal of Medical Toxicology, revista científica de toxicologia clínica, o relato de um homem que resistiu a uma intoxicação pela droga em dose considerada letal. Ele teve parada cardíaca e passou cinco dias em um coma tão profundo que os médicos chegaram a discutir o diagnóstico de morte encefálica.
Ainda assim, conseguiu se recuperar sem sequelas neurológicas. O que neurologistas ouvidos pela reportagem explicam é que os casos são raros e podem ter relação com reações metabólicas ou resistência à substância. Vídeo mostra Christa Pike, que sobreviveu à injeção letal, durante julgamento em 1996 Como o paciente resistiu à dose letal?
Segundo o relato dos médicos, o paciente sofreu uma intoxicação e conseguiu pedir por ajuda dez minutos depois de ter tomado pentobarbital. A equipe de resgate chegou por volta de 20 minutos após a ingestão e o encontrou em parada cardiorrespiratória -- reação esperada com a substância -- com atividade elétrica sem pulso. Nesse quadro, o coração ainda emite sinais elétricos, mas não bombeia sangue.
Foram necessários dez minutos de reanimação e duas doses de adrenalina para a circulação voltar. No pronto-socorro, a avaliação médica mostrou que ele tinha a pontuação mínima na escala de Glasgow, que mede o nível de consciência. Não havia reflexos do tronco encefálico, região que liga o cérebro à medula e controla funções vitais.
A tomografia do crânio e o eletrocardiograma, porém, não mostravam alterações. Os exames de sangue confirmaram que a quantidade ingerida seria suficiente para matar sem intervenção médica. Para se ter uma ideia, cerca de duas horas e meia após a ingestão, a concentração de pentobarbital estava em 112 miligramas por litro.
Nas mortes causadas pela droga, a média relatada fica em torno de 30 mg/L. No caso de Pike, o protocolo penitenciário estabelece que sejam administrados 100 mililitros de uma solução de pentobarbital a 50 mg/mL, totalizando 5 gramas de pentobarbital, na execução. Ela teria recebido duas injeções.
O paciente recebeu carvão ativado por sonda, substância que retém parte do que ainda está no trato digestivo. Mesmo assim, o pentobarbital só deixou de ser detectado no sangue após cerca de 200 horas, pouco mais de oito dias. "Ele foi finalmente extubado no 10º dia após a overdose e recebeu alta para a enfermaria clínica no dia seguinte.
Ele precisou de mais 10 dias de internação para tratamento contínuo da pneumonia por aspiração e fisioterapia para reabilitação. Apresentou recuperação neurológica completa", escreveram os médicos. Christa Pike deixou local de sua execução de ambulância para ser hospitalizada AP Photo/George Walker IV O que isso mostra sobre como o corpo reage?
No artigo, os médicos citam que o coma profundo pode durar dias depois de uma intoxicação por pentobarbital. Segundo os médicos que escreveram o relato de caso, essa avaliação só deve ser feita depois que a droga tiver sido eliminada em quantidade suficiente. Enquanto a concentração no sangue é alta, a substância pode simular a ausência de atividade cerebral.
Até a publicação desta reportagem, tanto o estado do Tennessee, quanto a defesa de Pike não publicaram informações sobre seu estado de saúde. Após as injeções letais, ela seguiu internada. Outro ponto citado pelos médicos é que o paciente foi socorrido rapidamente, ainda que a ambulância tenha demorado 20 minutos para leva-lo ao hospital.
No caso de Pike, segundo sua defesa, não havia uma ambulância no local da execução para acompanhar caso as coisas dessem errado, como deram. Nas execuções, ainda há o agravante de que o esperado é de que a morte aconteça em 30 minutos. O que pode ter atrasado o atendimento.
O neurologista José Bauab explica que essa demora interfere no quadro de saúde do paciente e em uma possível recuperação. O especialista ainda aponta uma diferença importante entre os dois casos: no relato, o paciente ingeriu o medicamento. Na execução, a droga foi injetada na veia.
"Toda a medicação endovenosa tem um efeito muito mais rápido e mais intenso. No caso dela, não ter funcionado pode ter alguma relação com alguma resistência orgânica, em que ela não responde da mesma forma à substância, ou uma questão metabólica", diz. Christa Pike entrando em tribunal no Tennessee, nos Estados Unidos.
Foto de dezembro de 2007. J. Miles Cary/Knoxville News Sentinel/USA TODAY via REUTERS Como a droga age no corpo e o que pode acontecer?
O pentobarbital pertence aos barbitúricos, classe de medicamentos inventada no fim do século 19. Ele funciona como um sedativo de ação curta e, por décadas, foi usado como anestésico, para induzir o sono e para controlar convulsões. Na medicina humana, acabou substituído em grande parte pelos benzodiazepínicos, por causa dos riscos, inclusive o de dependência.
Os barbitúricos são depressores do sistema nervoso central: reduzem a atividade de diferentes funções do cérebro, e o efeito cresce conforme a dose. Em quantidades menores, acalmam e evitam convulsões. Com mais droga, induzem o sono e, depois, a anestesia.
Em doses ainda mais altas, como as usadas em execuções, o efeito suspende os comandos que mantêm o corpo vivo, como a respiração e a circulação, o que leva à morte. "A droga coloca o corpo como no estado de anestesia para a cirurgia, mas nesse contexto, a pessoa tem o suporte ventilatório para respirar por ela. Sem isso, o corpo acaba entrando em choque e não suporta", explica Bauab.
Era esse o roteiro que as testemunhas esperavam ver. John North, jornalista da emissora WBIR, afiliada da NBC News, contou que imaginava ver a respiração de Pike se alongar, com pausas cada vez maiores, até cessar. Quando as persianas da sala foram fechadas pela segunda vez, às 20h05, ela ainda respirava e, em alguns momentos, roncava.
"A respiração dela não estava bem. Estava meio forçada, ofegante", relatou North ao deixar a penitenciária. Para Bauab, a falta de suporte respiratório e a demora no atendimento descritas pela defesa podem ter causado danos cerebrais graves.
