Tamboril centenário guarda memória dos 131 anos de Petrolina A história dos 131 anos de emancipação política de Petrolina, no Sertão de Pernambuco, está em cada canto, construção e morador do município, seja nativo ou alguém que escolheu a cidade para viver. Símbolo de força, vida e regeneração, o Tamboril da rua Conselheiro Rosa e Silva, no bairro Palhinhas, é testemunha das mudanças que aconteceram e continuam acontecendo na Terra dos Impossíveis.

O tamboril gigante é imponente na rua calçada com paralelepípedo, tomando parte da via. Quando Maria da Luz, de 86 anos, se mudou para o bairro, há meio século, a árvore já estava lá. Só que o cenário era bem diferente.

“Dizem os mais velho que nós, aliás, mais velho não, mas os primeiros que chegaram aqui, que aqui era uma casinha de taipa e faziam os forró antigamente”, lembra a moradora. 📱:Baixe o app do g1 para ver notícias de Petrolina e Região em tempo real e de graça Ruas com asfalto eram raras quando Maria recebeu do sogro a missão de comprar uma casa em Petrolina. “Petrolina era bem simplesinha, não existia asfalto, era tudo terra de chão, as estradas eram tudo assim, calçada na pedra”.

Era na rua de terra que José Brito, de 62 anos, brincava com os irmãos. A família mora há mais de seis décadas na Conselheiro Rosa e Silva. O vizinho gigante viu o menino crescer e ficar adulto, acompanhando todas as mudanças.

“Quando chegamos aqui, já tinha essa árvore, nessa rua”, afirma. Segurando uma fotografia, Brito descreve como era a vida na Petrolina de sua infância. “Aqui era uma roça, nós morávamos dentro de uma roça, só tinha uma saída.

Porque era toda cercada de arame”, lembra. José Brito mora há mais de 60 anos no bairro Palhinhas, em Petrolina Emerson Rocha / g1 Petrolina Se antes, como dizem os moradores, a região do bairro Palhinhas era uma roça, hoje o cenário é totalmente diferente. “Hoje a gente mora no centro, hoje é diferente demais”, diz Brito, sem deixar de lado a nostalgia.

“Mas foi um tempo bom para nós, viu? A gente criança era bom demais, correr aqui dentro do mato”. As lembranças da Petrolina antiga estão nas memórias dos moradores.

Maria Madalena Feitosa vive há cinco décadas na Rosa e Silva. Ela viu as roças se transformarem em bairros, que foram cortados por avenidas, ganhando prédios e outras construções. O tamboril é o fio condutor das lembranças, servindo como elo entre o passado e o futuro.

“A cidade cresceu e nunca foi tirada esta árvore”, destaca Maria Madalena. Testemunha da história Tamboril gigante na rua Rosa e Silva, no bairro Palhinhas, em Petrolina Emerson Rocha / g1 Petrolina A idade e origem do tamboril da rua Rosa e Silva são incertos. Enquanto uma vizinha afirma que a árvore foi plantada pela mãe dela, que hoje tem 91 anos, para sombrear a casa, outro diz que ela foi plantada em outro ponto da rua e depois transferida para o local onde está até hoje.

A pedido do g1, o professor do Campus Petrolina Zona Rural do Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IFSertãoPE) e especialista em arborização urbana, Ricardo Macedo, calculou a idade estimada da árvore. Ele considerou a taxa de crescimento anual e o diâmetro medido a 1,5 metro do chão. Segundo o professor, um tamboril com 1,84 metro de diâmetro tem entre 120 e 230 anos.

Independente da idade, certo mesmo é o significado histórico que o tamboril gigante tem. “Uma árvore é um patrimônio vivo de uma cidade. Isso pode até parecer estranho, já que geralmente o patrimônio é muito ligado a monumentos.

Quando a gente olha esse tamboril aqui no bairro de Palhinhas, a gente pensa no quanto essa árvore serviu não só de sombra, mas de referência para uma comunidade”, destaca o historiador e jornalista, Jota Menezes. Tamboril gigante do bairro Palhinhas, em Petrolina Emerson Rocha / g1 Petrolina O historiador lembra que a origem de Petrolina também está conectada a uma árvore.

“Aqui em Petrolina e Juazeiro, nós temos a planta juazeiro também como uma referência das cidades, que vivem aqui e que se criaram aqui no Vale do São Francisco. Por exemplo, o primeiro nome de Petrolina foi passagem do Juazeiro”. A Passagem do Juazeiro foi crescendo ao longo dos anos, até se tornar referência do Vale do São Francisco.

Marceneiro aposentado, João de Aquino, de 85 anos, chegou em Petrolina quando era criança, em 1950. A família saiu de Paulistana, no Piauí, para tentar construir a vida no interior pernambucano. “Ave-maria, se você for contar a história de Petrolina no tempo que eu cheguei aqui de criança, é muita coisa.

A cidade era pequena. Aqui de bairro só tinha Atrás da Banca, Vila Mocó, o Ciseiro que hoje é Gercino Coelho, e o Alto Cheiroso”, lembra o aposentado. Com o passar dos anos, a quantidade de bairros chegou a cerca de 140.

A população também cresceu. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados em 2025, a população de Petrolina está estimada em mais de 418 mil pessoas. O município sertanejo tem a terceira maior população do estado, atrás apenas do Recife (1.588.376) e de Jaboatão dos Guararapes (684.293).

Para Jota Menezes, a vocação para a fruticultura e a posição geográfica foram fundamentais para o crescimento local. “Quem vem do Norte, passando pelo Ceará, pelo Piauí, passa por Petrolina, quem vem do Sul e do Sudeste, e vai na direção do Norte, passa pela ponte Presidente Dutra. Então, Petrolina tem realmente essa característica que a tornou naturalmente uma cidade, eu diria, abençoada, principalmente por sua localização estratégica”, afirma.

Ao longo do tempo, a vida mudou para Petrolina e para João de Aquino. Na cidade, ele virou pai, avô, bisavô e tataravô. Morador da rua Rosa e Silva desde 1980, o aposentado destaca o papel simbólico do tamboril nessa evolução.

“Não tinha nada aqui ao redor. Tinha umas casinhas ali na beira da outra pista, aqui nas Palhinhas, umas casinhas tudo pequeninha, tudo de barro. E foi crescendo, junto com a árvore, que foi acompanhando tudo”, diz.

Tamboril e Petrolina gigantes Tamboril gigante no bairro Palhinhas, em Petrolina Emerson Rocha / g1 Petrolina Evanete Castro da Silva, 56 anos, é mais uma entre muitas pessoas que escolheram Petrolina como casa. Natural de Senhor do Bonfim, na Bahia, se mudou para o município pernambucano para acompanhar o filho, que ia para a faculdade. São dez anos morando na rua Conselheiro Rosa e Silva, tendo o tamboril como referência.

“Como todos dizem aqui: ‘Ah, eu moro naquela rua da árvore grossa do meio da rua’. Aí todo mundo já sabe qual é a árvore”, diz. Referência da rua, o tamboril é uma árvore típica da flora brasileira, que pode atingir mais de 20 metros de altura.

Para Evanete, o que mais chama atenção no vizinho gigante são as mudanças ao longo do ano. “Ela é muito bonita, porque ela tem todas as fases: ela verde, ela seca, com vagem e com flores. Então é uma árvore centenária que chama atenção de qualquer pessoal que passa por aqui”.

Assim como a árvore, Petrolina também cresceu. “Hoje, Petrolina tem como sustentáculo econômico a agricultura irrigada que puxa as outras coisas, que alimenta o comércio, o setor de serviços e até o turismo. Petrolina exporta frutas para mais de 50 países”, destaca Jota Menezes.

Para os moradores da Rosa e Silva, mudar de endereço está fora de cogitação. “Graças a Deus estamos aqui e a cidade está evoluindo e crescendo bastante”, comemora Maria da Luz. “Eu gosto daqui.

Um lugar muito bom, não é? Tem muita fartura. Foi muito boa essa irrigação que foi feita, não é?”, diz Maria Madalena.

“Todo mundo que chega aqui fica perguntando quantos anos [a árvore] tem. A gente fica com alegria porque mora no bairro, né? Faz parte dessa história de Petrolina”, concluiu José Brito.

Vídeos: mais assistidos do Sertão de PE