Polícia investiga ameaça de equipe de candidato a deputado estadual contra homem autista. A Polícia Civil investiga um caso de ameaça registrado em Aquiraz, na região metropolitana de Fortaleza, no último dia 31 de agosto. A família de um homem autista de 39 anos, identificado como Wendel de Castro Paiva, denunciou que ele foi ameaçado por seguranças de Abreu Júnior, candidato a deputado estadual pelo PL, durante ato de campanha.

Nas redes sociais, Abreu Júnior se pronunciou sobre a confusão. Ele alegou que Wendel quebrou uma bandeira da campanha dele, que estava colocada em uma rotatória e, depois, tentou agredi-lo. E afirmou ainda que o homem estava sem identificação de autista.

Em nota, a Polícia Civil do Ceará informou que investiga um caso de ameaça ocorrido, nessa segunda-feira (31), no Centro do município de Aquiraz. “Um Boletim de Ocorrência (BO) foi registrado na Delegacia de Polícia Civil de Aquiraz, unidade que realiza diligências com o intuito de elucidar os fatos”, disse a corporação. Imagens obtidas pelo g1, feitas por câmeras de segurança (veja no topo da reportagem), mostraram diferentes ângulos da confusão.

Em um deles, é possível ver o momento em que homens, que seriam seguranças do candidato, renderam Wendel e o colocaram de joelhos encostado em uma calçada. Confusão entre homem autista e seguranças de candidato aconteceu durante ato de campanha em Aquiraz (CE). Reprodução Candidato alega armação Abreu Júnior publicou um vídeo comentando a confusão registrada no Centro de Aquiraz.

O candidato acredita que Wendel foi induzido a quebrar a bandeira por candidatos opositores. “Até que ponto chegou a covardia e o desespero desses caras? Chegaram a usar uma pessoa inocente, especial, para tentar me atingir”, declarou.

“Esse homem pegou apenas as minhas bandeiras, quebrou e foi em minha direção tentando me agredir”, disse o candidato do PL. Conforme Abreu Júnior, o local tinha bandeiras de outros candidatos e partidos. “Na abordagem, que foi rápida, os populares chegaram para as pessoas e disseram que se tratava de uma pessoa especial.

Logo que fomos informados que se tratava de uma pessoa especial, a abordagem cessou, sem nenhum tipo de agressão”, alegou Abreu Júnior. O candidato também afirmou que Wendel não estava com nenhum tipo de identificação mostrando ser autista. “O homem que tentou me agredir não estava identificado com nada, nem com pulseira, nem com cordão, não dava para saber se era um autista, PCD ou especial”, reforçou.

Por fim, o candidato comentou ainda que Wendel fugiu em direção a um carro, que estava parado próximo ao local, com adesivos de candidatos opositores. Um vídeo publicado por Abreu mostra esse momento. “Ele não conseguiu entrar no carro, se assustou, e saiu em direção à esquina.

E ele foi abordado, porque até o momento ninguém sabia de quem se tratava. E era do nosso interesse abordá-lo e chamar a viatura de polícia, até porque eu preciso saber quem mandou ele fazer isso, porque pegou as minhas bandeiras e porque tentou me agredir”, complementou o candidato. Candidato Abreu Júnior (PL) publicou imagens do homem quebrando bandeira dele em Aquiraz (CE).

Abreu Júnior/Redes sociais/Reprodução Denúncia de ameaça Após a confusão, Wendel foi levado pela própria mãe, Aldenora de Castro Paiva, para a Delegacia de Aquiraz, onde foi registrado um boletim de ocorrência por ameaça. No documento, a mãe de Wendel apontou Abreu Júnior e os seguranças como responsáveis pela abordagem agressiva ao filho dela. O g1 conversou com Maria Luiza Paiva, irmã de Wendel.

Ela disse que a confusão aconteceu próximo à casa onde o irmão mora com a mãe deles. Uma amiga dela, que trabalha em um salão de beleza próximo ao local da confusão, ligou avisando que "uns homens tinham pegado o Wendel". Então, Maria avisou à própria mãe, que foi ao local acompanhada do pai deles.

“Eles xingaram, fizeram ele se ajoelhar, e tem um [homem] lá, que eu não sei se é polícia, eu acho que ele é polícia, pela ação que ele fez assim da abordagem, estava querendo pegar uma arma, alguma coisa, para intimidar meu irmão”, disse Maria. Ela confirmou que o irmão pegou uma bandeira do candidato e a quebrou e afirmou que o crachá de identificação de autista estava no bolso do short de Wendel, mas ressaltou que "não justifica eles fazerem isso [agressões]”.

Maria disse ainda que Wendel não precisou de atendimento hospitalar, mas foi medicado pela própria mãe para se acalmar pois ficou muito nervoso com toda a situação. “Eu não sei como é que ele não passou mal, não sentiu alguma coisa nessa hora, porque ele tem deficiência. Não sei como foi que ele não desmaiou, não passou mal, de tanto medo, porque ele estava muito nervoso”, reforçou a irmã de Wendel.

Prefeitura repudia caso A Prefeitura de Aquiraz emitiu uma nota de repúdio à abordagem contra Wendel. “As cenas divulgadas, que mostram Wendel sendo colocado de joelhos, causam indignação e preocupação. A gestão municipal se solidariza com Wendel e seus familiares e reforça que o respeito à dignidade e aos direitos das pessoas com deficiência deve prevalecer em qualquer circunstância”, disse o governo municipal.

“A Prefeitura cobra o devido esclarecimento dos fatos e espera que o episódio seja apurado com responsabilidade pelas autoridades competentes, inclusive quanto às circunstâncias e à proporcionalidade da abordagem registrada”, salientou. O prefeito de Aquiraz, Bruno Gonçalves (PSB), publicou um vídeo, nesta quarta-feira (2), também em repúdio à ação. “E eu não estou aqui para falar de ideologia partidária, se você é de direita, de esquerda, mas, definitivamente, o que eles fizeram não é política”, disse o gestor.

“O candidato ordena um segurança armado a colocar uma pessoa de joelho no chão, de forma agressiva. Eles não são polícia. Eles não têm esse direito.

Não vale tudo na política. [Que] a gente continue fazendo política, mas da maneira certa. Trabalhando, com propostas, com diálogo, com ideias, jamais com violência”, destacou Gonçalves.

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