Professor pega bebê no colo para ajudar aluna durante aula no Acre O que começou como uma situação rotineira dentro de uma sala de aula acabou chamando a atenção nas redes sociais. O professor de espanhol Natan Trindade, da Escola Lourival Pinho, em Rio Branco, publicou um vídeo em que aparece com uma bebê no colo enquanto acompanha os alunos durante uma atividade. (Assista acima) A cena foi publicada nessa quinta-feira (3), durante o período de testes da escola.
Ao g1, o professor explicou que a criança é filha de uma das estudantes e que costuma ficar na sala durante as aulas. Os próprios alunos, inclusive, se revezam para cuidar dela enquanto a mãe estuda. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 AC no WhatsApp Para que os estudantes conseguissem concluir a atividade com mais tranquilidade naquele momento, o professor decidiu assumir o cuidado com a criança enquanto continuava acompanhando a turma.
"Para deixar os meninos mais à vontade de poder fazer a atividade tranquilamente, eu terminei de passar a atividade, coloquei a bebê no colo e fiquei circulando na sala, tirando as dúvidas", relembrou. Natan Trindade é professor da rede pública do Acre desde o início deste ano Reprodução Natan tomou posse como professor em janeiro deste ano, mas já trabalha na educação desde 2019, quando atuava como assistente escolar na capital.
Para ele, situações como essa fazem parte de uma realidade que nem sempre é percebida por quem está fora da escola. LEIA MAIS: Para driblar calor intenso, professor coloca barra de gelo em caixa d’água no Acre; veja VÍDEO Indígena Huni Kuĩ é aprovado em concurso para professor no Ifac: 'Fiquei sem acreditar' Ufac prevê 1ª turma de Farmácia para 2028; VEJA vagas, forma de ingresso e estrutura do curso Na escola, de acordo com o docente, há outras estudantes que são mães e também gestantes.
Ele contou que atitudes como essa também fazem parte do processo de aprendizagem. "Ensinar vai muito além de quadro, gramática, livros. Nós, enquanto professores, enquanto seres humanos, enquanto adultos, ensinamos com nossos gestos, com nossas palavras, com nossa atenção.
Aquele momento foi uma ajuda pontual, mas também para que os alunos possam ter um pouco mais de empatia, de cuidado com o outro", frisou. A situação também ganhou outro significado para Natan por envolver mães adolescentes, que, segundo ele, muitas vezes retornam à escola com receio do julgamento dos colegas. "Essas mães na adolescência, essas grávidas na adolescência, elas são muito julgadas, atacadas [...] eu trago para perto de mim, cuido, acolho, e é um trabalho da escola no geral que apoia as mães, que acolhe.
Os outros professores também fazem isso de pegar, de cuidar", comentou. 📊 Segundo a última pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre gravidez na adolescência, divulgado em maio do ano passado, o Acre é o estado brasileiro com o maior percentual de mães até os 19 anos em 2023, com 21,4%. Em termos estatísticos, uma em cada cinco mães no Acre tinha até 19 anos na data do parto do ano estudado.
Natan Trindade segurava filha de aluna para ela poder estudar; ato repercutiu nas redes sociais Reprodução Repercussão Natan costuma publicar nas redes sociais registros do cotidiano escolar. A intenção, segundo ele, é mostrar que a rotina de uma escola envolve situações que vão muito além da transmissão de conteúdo. "Algumas pessoas não têm noção do que é o dia a dia da escola.
A escola não é só livro, não é só estudar. Nós trabalhamos com pessoas, com seres humanos, com vidas, e a nossa comunidade é periférica. Nós temos muitos alunos carentes, e às vezes as pessoas que estão de fora não têm noção do que é uma sala de aula", destacou.
Para o professor, a rotina de quem trabalha em sala de aula exige adaptação constante. Foi nesse contexto que publicou o vídeo com a bebê. A repercussão, no entanto, não era esperada.
"Todo dia é uma emoção diferente. Nós, professores, temos que nos inventarmos todos os dias. A gente chega preparado para uma coisa e tudo pode acontecer dentro da sala de aula, inclusive nada.
E esse dia foi um dia em que a bebê tava lá e eu peguei para cuidar e todos os outros professores também tem esse mesmo cuidado não só com ela, mas com as outras que têm bebê também", falou. Gravidez na adolescência: conheça os direitos das gestantes Falta de preparo e adaptação Apesar da experiência cotidiana da equipe, Natan reconhece que as escolas ainda não estão necessariamente preparadas para receber estudantes adolescentes que chegam às aulas acompanhadas dos filhos.
Ele considerou que, na prática, professores, coordenação e direção acabam construindo soluções conforme as situações aparecem, a fim de evitar que as mães adolescentes abandonem os estudos por constrangimento ou falta de apoio. "As mães voltam para a escola com muita vergonha de chegar com o bebê no colo, e aí nós, enquanto escola, enquanto professores, temos que ter esse olhar mais carinhoso, mais delicado de acolher, abraçar, receber e tratar da melhor forma", salientou.
Para Natan, o episódio que repercutiu acabou mostrando justamente uma realidade onde professores precisam lidar com diferentes situações em sala de aula enquanto tentam garantir que os estudantes continuem aprendendo. "Na primeira vez que a gente chega e dá de cara com um adolescente com o bebê no colo, dentro de uma sala de aula com 35, 40 alunos, é um pouco desesperador. Mas nada que um coração valente e muito amor não resolva essa situação", finalizou.
VÍDEOS: g1
