Algumas cidades passaram a funcionar como polos urbanos regionais e a atrair moradores de municípios menores. TVCA/Reprodução Mato Grosso vive um movimento de concentração populacional em cidades que se destacam pelo agronegócio, agroindústria, logística e serviços, enquanto municípios menores enfrentam redução no número de moradores.
Entre 2022 e 2025, cidades como Sinop, Sorriso, Lucas do Rio Verde e Nova Mutum ganharam população, enquanto outras, como Jauru, registraram queda, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A população do estado passou de 3.893.659 para 3.950.330 habitantes em 2026 e registrou o terceiro maior crescimento populacional entre os estados brasileiros.
Ao g1, o professor de economia Maurício Munhoz explicou que o crescimento populacional do estado acompanha cada vez mais a concentração de oportunidades de emprego, renda e serviços. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MT no WhatsApp Agora no g1 Os dados, no entanto, são estimativas e não representam, necessariamente, o número exato de pessoas que migraram para cada município ou deixaram essas cidades.
Para Munhoz, o fenômeno revela uma transformação econômica no interior de Mato Grosso: algumas cidades passaram a funcionar como polos urbanos regionais e a atrair moradores de municípios menores. Municípios que ganharam mais de mil habitantes Entre os municípios que mais ganharam população estão Sinop, Sorriso, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Primavera do Leste e Querência.
Segundo o professor Munhoz, o crescimento populacional em Mato Grosso mostra uma concentração de moradores nos polos econômicos mais dinâmicos do estado, principalmente nas regiões ligadas ao agronegócio, à agroindústria, à logística e aos serviços. Para ele, esse grupo pode ser dividido entre cidades impulsionadas pelo agronegócio e grandes polos urbanos já consolidados. Segundo ele, a agricultura altamente produtiva criou uma cadeia econômica que vai além da produção no campo.
O crescimento movimenta setores como transportadoras, armazéns, frigoríficos, usinas de etanol de milho, construção civil, comércio e prestação de serviços. “Não é simplesmente crescimento do agro. É a transformação de algumas cidades do interior em polos urbanos regionais.
Uma atividade alimenta a outra”, explicou. Confira os municípios que aumentaram mais de 1000 habitantes entre 2025 e 2026: Municípios que tiveram crescimento de mais de mil habitantes entre 2025-2026 Outro grupo é formado pelos grandes polos urbanos, como Cuiabá, Várzea Grande e Rondonópolis. Nesses municípios, além da atividade econômica, a concentração de hospitais, universidades, comércio, administração pública, logística e serviços especializados também contribui para atrair moradores.
Há ainda cidades como Tangará da Serra e Barra do Garças, que funcionam como polos regionais. Elas atraem moradores de municípios menores do entorno em busca de emprego, educação, saúde, comércio e serviços. Para o professor, o fenômeno pode ser explicado pela busca por oportunidades.
“As pessoas estão seguindo as oportunidades. Mato Grosso está reproduzindo internamente um fenômeno clássico das sociedades em desenvolvimento: a migração em direção aos polos que concentram emprego, renda e serviços”, explicou. Munhoz destacou que o crescimento do agronegócio não significa, necessariamente, aumento expressivo de trabalhadores diretamente no campo, já que a produção é altamente mecanizada.
O impacto populacional aparece principalmente nas cidades que prestam serviços ao setor e industrializam a produção. Sinop é apontada por ele como um dos principais exemplos. Segundo o professor, a cidade deixou de ser apenas um centro ligado à produção agrícola e passou a concentrar universidades, serviços médicos, comércio e empresas que atendem a uma extensa região do norte de Mato Grosso.
O crescimento populacional, segundo o professor, tende a ser positivo para a economia, pois amplia o mercado consumidor, a oferta de mão de obra, os investimentos e a arrecadação. O desafio, porém, é garantir que a infraestrutura acompanhe o aumento de moradores. “Crescer é uma boa notícia, desde que a infraestrutura cresça junto com a população”, afirmou o professor.
Municípios que perderam mais de 100 habitantes Para o professor Munhoz, nos municípios que apresentaram redução populacional, o fenômeno é praticamente o inverso. Entre eles estão Jauru, Guiratinga, General Carneiro e outras cidades que tiveram ciclos econômicos importantes, ligados à mineração, madeira, pecuária ou agricultura, mas não conseguiram desenvolver novas atividades com capacidade semelhante de gerar empregos urbanos.
Segundo ele, essa situação provoca o que os estudos demográficos chamam de migração seletiva. Confira os municípios que apresentaram perda de mais de 100 habitantes: Municípios que perderam mais de 100 habitantes entre 2025-2026 O movimento costuma começar quando jovens deixam o município para estudar em cidades maiores, como Cuiabá, Sinop, Rondonópolis e Cáceres. Depois de concluir os estudos e conseguir emprego, muitos acabam formando família e permanecendo nesses centros.
“Normalmente, são os jovens, que têm maior participação na população economicamente ativa, que apresentam maior propensão a sair", afirmou o professor. A perda contínua de moradores pode gerar impactos econômicos e sociais. Entre eles estão a redução do mercado consumidor, menor oferta de mão de obra, dificuldade para atrair empresas e investimentos e envelhecimento da população.
O professor também aponta a possibilidade de um ciclo de perda populacional. “Menos oportunidade, saída de jovens, mercado menor, menos investimento, menos oportunidade e nova saída populacional.” Para ele, embora uma redução da população possa gerar algum alívio momentâneo na demanda por infraestrutura, habitação e serviços públicos, porém, a perda persistente tende a produzir mais efeitos negativos para os municípios.
Municípios 'nem-nem' Ainda na comparação, temos o município de Apiacás, que ficou na categoria de município 'nem-nem': que nem cresceu, nem diminuiu a quantidade de habitantes no último ano. Para Munhoz, isso não significa necessariamente estagnação econômica. Em cidades pequenas, diferenças de poucos habitantes podem estar relacionadas à própria metodologia utilizada nas estimativas populacionais.
O professor ressalta que os números divulgados pelo IBGE são estimativas populacionais e não representam uma contagem exata de quantas pessoas entraram ou saíram de cada município. Por isso, segundo ele, o mais adequado é falar em aumento ou redução da população estimada, e não afirmar que determinado número de pessoas migrou efetivamente para uma cidade. O que os dados mostram sobre Mato Grosso Na avaliação de Munhoz, o mapa populacional de Mato Grosso acompanha cada vez mais o mapa das oportunidades econômicas.
“As cidades que conseguiram transformar a riqueza do agronegócio, da agroindústria, da logística, do comércio e dos serviços estão atraindo população”, explicou. Ao mesmo tempo, municípios que não conseguiram diversificar suas economias na mesma velocidade tendem a perder moradores, principalmente os mais jovens. Para o professor, o estado enfrenta dois desafios: garantir infraestrutura nas cidades que crescem rapidamente e criar novas oportunidades econômicas nas regiões que estão perdendo população.
