Um riacho atravessa uma área de cultivo em Marshalltown, em Iowa. Brittany Peterson/AP O estado de Iowa, uma das potências do agronegócio dos Estados Unidos, enfrenta um déficit orçamentário, custos elevados e dificuldades econômicas provocadas por disputas comerciais que têm pressionado os agricultores. Mas dois problemas que se arrastam há décadas — a qualidade da água e os índices de câncer — ganharam destaque nas campanhas para as eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms.
📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça ➡️ As midterms são realizadas na metade do mandato presidencial. Elas renovam toda a Câmara dos Representantes e cerca de um terço do Senado, além de definir governadores e outros cargos estaduais e locais. Em Iowa, esses temas polêmicos estão sendo abordados em debates, mesas-redondas e propagandas eleitorais de candidatos democratas e republicanos a diferentes cargos.
Agora no g1 Historicamente, o assunto tem sido um tabu político para evitar apontar responsabilidades da indústria agropecuária de Iowa, um dos principais produtores de milho, soja e suínos dos Estados Unidos. ➡️ Os fertilizantes químicos e os dejetos animais usados na produção agropecuária, por exemplo, contêm nitratos e fósforo, que podem ser levados pela água da chuva ou do derretimento da neve até os rios do estado.
O problema há muito tempo provoca tensões entre os centros urbanos de Iowa, de tendência mais progressista e que dependem de rios e lagos para o abastecimento de água potável, e os produtores rurais, em sua maioria conservadores. Cada vez mais agricultores adotam práticas para impedir que esses resíduos sejam levados para os cursos d’água, embora críticos afirmem que a falta de regulamentação obriga os moradores que vivem rio abaixo a pagar pela poluição.
A atenção ao tema aumentou — e o cálculo político mudou — após dois anos consecutivos de restrições ao uso da água na região de Des Moines, somados ao crescimento do movimento “Make America Healthy Again” (“Tornar os Estados Unidos saudáveis novamente”) nas pequenas cidades e comunidades rurais de Iowa. LEIA TAMBÉM: Abóbora gigante de quase 1.500 kg é colhida nos EUA e pode bater recorde mundial Cliente ou rival?
Como a China pode passar de grande compradora a concorrente do frango brasileiro Índices de câncer são um problema crescente em Iowa Iowa tem a segunda maior taxa de novos diagnósticos de câncer do país. Os diagnósticos de alguns tipos, como os de próstata, mama e pulmão, estão aumentando mais rapidamente no estado do que nos Estados Unidos como um todo. O problema afeta tanto as áreas urbanas quanto as rurais.
Uma nova pesquisa da Universidade de Iowa, financiada pelo governo estadual, mostra que fatores demográficos e comportamentais, como o tabagismo e o consumo excessivo de álcool em uma única ocasião, podem explicar a maior parte — mas não a totalidade — da incidência acima do normal de cinco tipos de câncer no estado. Na próxima etapa, os pesquisadores avaliarão fatores ambientais, incluindo os níveis de nitrato.
“O verdadeiro problema é a água e os nitratos”, disse o democrata Josh Turek, candidato ao Senado dos Estados Unidos, durante uma conversa com pacientes com câncer na semana passada.
“Todo morador de Iowa merece ter a certeza, ao abrir a torneira, de que sua água está limpa e não está lhe causando câncer.” Musk gastou US$ 276 mi desde julho para ajudar partido de Trump nas eleições de meio de mandato nos EUA Alguns estudos encontraram uma associação entre nitratos na água potável e determinadas doenças, mas o tema continua em debate. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) atualmente não classifica os nitratos como um fator de risco para o câncer.
A agência iniciou um plano para rever essa avaliação em 2017, mas o processo foi paralisado, retomado e novamente interrompido sob diferentes governos na Casa Branca. A deputada federal republicana Ashley Hinson, que disputa a vaga com Turek, reuniu recentemente agricultores, pesquisadores e autoridades locais para discutir os problemas da água em Iowa.
Ela afirmou que é preciso manter os investimentos em infraestrutura, monitoramento da qualidade da água e programas de conservação para garantir água potável segura à população. Também disse que as pessoas podem se sentir seguras porque a água tratada que chega às torneiras atende às normas federais. “Todos sabemos que temos alguns desafios aqui em Iowa”, afirmou.
“Não acho que a qualidade da água seja uma questão partidária.” Poluição dos rios gera tensão política Há mais de dez anos, a companhia de abastecimento de água da região de Des Moines entrou na Justiça para que outras administrações locais ajudassem a pagar pela remoção de nitratos da água, que custava cerca de US$ 16 mil por dia. Essas regiões ficam em trechos dos rios anteriores à chegada da água a Des Moines. A ação foi rejeitada, e líderes republicanos de Iowa comemoraram a decisão.
No ano passado, a Central Iowa Water Works proibiu os moradores de regar gramados pela primeira vez, para diminuir o consumo de água e aliviar a sobrecarga do sistema de remoção de nitratos. Políticos do estado rejeitaram tentativas de responsabilizar os agricultores. Nos últimos anos, Iowa vinha investindo quase US$ 100 milhões por ano em medidas para reduzir a presença de nutrientes na água.
Em maio, a governadora republicana Kim Reynolds e parlamentares destinaram mais US$ 320 milhões a obras de infraestrutura hídrica, incentivos à conservação ambiental e outros projetos. Parte dos recursos foi reservada à modernização dos equipamentos da Central Iowa Water Works. “A qualidade da água não é uma questão do campo.
Não é uma questão das cidades, nem uma questão política”, disse Reynolds. “Mas é absolutamente inegociável.” Apesar dos investimentos, a demora nos resultados continua sendo alvo de críticas, inclusive dos candidatos que disputam a sucessão da governadora. Trump acusa Brasil de trabalho forçado na pecuária, mas isenta carne bovina de nova tarifa Tema ganha destaque na disputa pelo governo O republicano Zach Lahn e o democrata Rob Sand defendem que o estado dê mais atenção à qualidade da água.
Nenhum dos dois, porém, propõe obrigar os produtores rurais a adotar práticas que reduzam a quantidade de poluentes levados das lavouras e criações para os rios. Lahn recebeu o apoio do comitê político MAHA Action no início da disputa interna do partido. Diferentemente de muitos colegas republicanos, ele associa diretamente a água poluída e os produtos químicos usados na agricultura aos altos índices de câncer em Iowa.
Em agosto, durante um encontro do candidato com eleitores para discutir agricultura no nordeste do estado, uma participante demonstrou preocupação. Lahn reconheceu a importância de determinados produtos químicos para a produção agrícola. “Não estamos aqui para proibir produtos”, afirmou, “mas precisamos enfrentar o problema da qualidade da água”.
Nos Estados Unidos, as normas federais permitem até 10 miligramas de nitrato por litro de água potável. O limite foi definido para prevenir a chamada síndrome do bebê azul, condição em que o sangue do bebê não tem oxigênio suficiente. Estudos científicos vêm investigando, porém, se concentrações abaixo desse limite também podem estar associadas a certos tipos de câncer.
Lahn contou que testou a água de seu poço e de um riacho na zona rural do centro-leste de Iowa. Nos dois casos, os níveis de nitrato ficaram muito acima do permitido. Neste ano, a Central Iowa Water Works precisou manter o sistema de remoção de nitratos funcionando por 193 dias seguidos, um recorde.
No auge do verão, mesmo após o tratamento, a água tinha entre oito e nove miligramas de nitrato por litro, perto do limite federal. Sand também costuma falar da qualidade da água logo no início de seus discursos de campanha. Ele conta que a defesa da água limpa foi um dos motivos que o levaram a se filiar ao Partido Democrata, já que gosta de pescar.
Na terça-feira, após se reunir com sobreviventes de câncer e pais de crianças com a doença, o candidato disse que a preocupação da população com o tema tem crescido nos últimos anos. “Ouço com frequência pessoas tão preocupadas com isso que se perguntam se querem continuar em Iowa”, disse Sand. Disputa pela Secretaria de Agricultura de Iowa expõe a tensão O pesquisador Chris Jones conta que, há 20 anos, informava seu chefe na companhia de abastecimento de água de Des Moines sobre os níveis de nitrato nos rios.
“Ele me perguntava: ‘Cadê a indignação?’”, lembrou Jones. “Agora, a indignação chegou.” Jones, que depois trabalhou no monitoramento da qualidade da água na Universidade de Iowa, considera uma grave falha do estado que os moradores já não confiem na água que bebem. Pelo Partido Democrata, ele disputa o cargo de secretário de Agricultura de Iowa, escolhido por eleição, e tenta derrotar o atual ocupante, o republicano Mike Naig.
Uma das principais diferenças entre os candidatos está na obrigatoriedade de medidas de conservação ambiental no campo. Em um debate, Naig classificou Jones como uma voz isolada na defesa dessa exigência. O setor agropecuário de Iowa resiste à adoção de regras obrigatórias.
Entre os argumentos estão o fato de que nem todos os produtores são donos das terras onde trabalham e o risco de que algumas medidas reduzam os lucros, pelo menos no início. Naig, que já trabalhou na fabricante de produtos químicos Monsanto, destacou os recordes alcançados pela secretaria durante o governo Reynolds. Segundo ele, as ações de conservação estão sendo ampliadas para que os resultados apareçam mais rápido.
“Esse tem sido um tema muito discutido na campanha”, disse Naig. Mas “precisamos olhar para essas questões no longo prazo, e estamos avançando”.
